segunda-feira, 20 de maio de 2013
Dor Desconhecida
É física.
É um raspar, um corte, uma luxação.
É critica.
É um romper, um partir, uma contracção.
Diverge entre feridas e mutilações.
Remedeia-se com Midas ou medicações.
E é transcendente.
É uma fala, uma palavra, uma acção.
É inteligente.
É um verbo, um nome, uma altercação.
Corrói do fundo ao exterior.
Remedeia-se com tempo ou perdendo rancor.
Prepara-mo-nos para o que conhecemos.
A dor, como emoção cíclica
Passa com o Saber quem ao redor temos.
Só ela: metafísica.
A dor, a mais contrastante,
Bulímica, rítmica, retumbante,
É o anúncio de quem nunca Soubemos.
A demonstração de quem nunca assim cremos.
A vida faz o favor de o demonstrar,
Que a quem sempre viste serenidade,
Te arrancou a capacidade
De ouvir, de perdoar.
Que a quem sempre viste serenidade,
Se demonstra uma mentira nesta verdade.
A física esconde a suplantação,
O conhecimento de alguém te recupera,
Mas a descoberta de uma mentira te rasga.
E conquistas valias,
Que te farão ver luz ao voltares ao fundo.
Susterás nas nuvens frias,
E ao respirar beberás do mundo.
sexta-feira, 17 de maio de 2013
A normalidade é-me demasiado chata
O que faz do amor aquilo que é?
Que estranha sensação que gira o Mundo.
Longe da água e a perder o pé.
A ausência que traz um normal profundo.
Quando vivido, esbulha-se num passado questionável.
Se ausente, é vida que não se sente,
É logro, é mentira, é fraude, é irrealizável.
O que é o amor quando não mora?
Este estranho momento dando-nos certezas da vida.
Este estranho momento de máquinas lá fora.
O que é o amor quando não se lida?
Máquinas!
Ah, rodas dentadas humanas!
Presas na minha mente, demasiadamente livre de colorido.
Mais do que esta normalidade largada no meu pavor.
Há um receio de que seja este o sentido da vida.
Mais do que o tédio de um apaixonado sem paixão ou amor,
Há o medo de que tudo seja apenas isto:
Um só e longínquo traço vivido entre paredes e tectos.
Um cinzento sem tom, de sistema binário.
Um sem número de intelectuais projectos.
Esta estadia é demasiado curta para existir sem emoção.
Sim, o previsível não mata.
Sim, o calculado é a melhor acção.
Mas a normalidade é-me demasiado chata.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Ainda não me lembro de ti como és

Ainda não me lembro do nosso primeiro beijo.
Da música que nos cercava,
A conversa que criou o ensejo,
Dos olhos em tua boca que me olhava.
Ainda não me lembro dos traços da vertigem,
Ao subir o castelo da cidade,
A paisagem que teus cabelos tingem,
Os calafrios da nossa novidade.
Ainda não me lembro do mergulho conjunto,
Da água que nos separava e juntava,
Do abraço apertado tornando-se assunto,
Da areia que pisava.
Ainda não me lembro do cinema.
Da luta de pipocas apaixonadas,
Do empurrão ao "sem tema",
Dos primeiros sentimentos em risadas.
Ainda não me lembro do nosso choro.
Do momento de dor unidos,
Das mãos que se enlaçam em coro,
Do mundo em que estivemos feridos.
Ainda não me lembro de nada.
Porque o passado é apenas presente
E o futuro se faz agora somente.
Numa vida obtusa que parece errada.
Ainda não me lembro de ti como serás,
Porque a vida é uma réplica aperfeiçoada
Uma repetição melhorada, se assim a farás.
Ainda não me lembro de ti como és: diferente.
Sei que existes, igual, só então somente...
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Carruagem
Encostei-me a uma das laterais e olhei a carruagem bem ao fundo. Um silêncio profundo de que o ressoar dos carris em ferro já fazem parte.
Na minha cabeça saltou a "velha máxima": "Ninguém fala com ninguém nos transportes hoje em dia. Cada um segue o seu caminho. Entra mudo e sai calado."
E a minha percepção entrou em desacordo.
A rapariga que escreve uma mensagem no telemóvel. O homem sentado à frente dela que se questiona sobre o conteúdo da mesma. A mulher ao lado do homem que está cansada e fascinada com as botas da outra mulher que à minha frente boceja sem parar com os olhos vermelhos de sono. Um bocejar que contagia a rapariga numa animada conversa com o namorado, sem sequer abrirem a boca, sentados atrás de mim.
Alguém que se pergunta no final da carruagem se conhece outra pessoa que está sentada algures mais à frente. Os pensamentos de um adolescente de phones nos ouvidos berram mais alto (não os phones, os pensamentos) que os carris.
Nesta ponta está alguém que se pergunta sobre o significado do silêncio com tantas perguntas e conversas e palavras num transporte público.
Alguém que conclui que uma carruagem de metro, trás consigo uma multidão de diálogos, monólogos, perguntas retóricas e preocupações.
Alguém que conclui que a carruagem é o lugar onde mais pessoas falam umas com as outras, ainda que sem abrir a boca.
Alguém que conclui que uma carruagem pode ser, de alguma forma, o espelho dos mundos.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Os cães aqui da rua
Nesta rua há uma data de cães com problemas de personalidade.
Já houve até uma cadela estilo Camões:
Era zarolha e à noite declamava.
Vão indo e vindo numa onda de variedade,
A ladrar atrás do carro a plenos pulmões.
E o vizinho lá berrava.
Já houve até um Alemão que coxeava com o dono.
Um outro sempre doente.
Um outro estilo mono.
Um desvario de cães eloquente.
Mas não se amontoam!
Substituem-se.
Como se ao fim de um mês, saíssem ao intervalo de um jogo.
Antes que a cabeça aos vizinhos moam,
Diluem-se.
Da noite para o dia em desafogo.
Agora andam por cá os dois do costume.
Um comprido que só dorme e olha ao longe,
Que se aquece ao sol e à noite quando há lume.
E um minorca estilo raposa cheio de anabolizantes,
Que ladra como porteiro de discoteca.
Um anão enterrado em esteróides e "ridicularizantes",
Que não se deu conta da falta de "estaleca".
Se fossem uma equipa de futebol, estes eram a equipa base.
Agora há ainda um "mini-cão" anteriormente fechado,
Vivia para ladrar como se fosse um "expert" em telecomunicações.
Viu-se agora libertado,
E deixou de tecer considerações.
Aparece ao final da estrada,
E basta chamar que vem a correr.
Leva umas festas a criatura mimada,
E obedece sem conhecer.
Se fosse um poeta,
Porque Vive o Caminho inteiro,
A sentir o mundo sem atenção na meta,
Seria Alberto Caeiro.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Ás vezes, o mundo é feito de papel
Ás vezes, o mundo é feito de papel.
O vento é o vento,
O sol é o sol,
O seu nascer não é mais um lago de mel.
A cor é a cor,
Os cheiros são os cheiros,
Uma flor, uma flor.
O acender dos candeeiros é apenas o respirar de uma rotina.
O abrir a cama um pedaço dela.
Sabemos o mundo que nos ensina,
Sabemos estes dias a sua aduela.
Reside agora numa palavra mais dura,
Num arrancar de gargalhada.
Num sarar a amargura.
Ser uma espécie de almofada.
Somos então felizes pelo que damos,
Pelo que apontamos.
Responsáveis por quem sempre esteve lá,
Por quem de novo aparece por cá.
Somos apenas nós próprios.
Num pleonasmo expressivo do que fomos.
Alojamo-nos nestes ópios,
Reforçando o que somos.
Somos só uma solidão durável e querida.
Que vive sozinha e interessada
Que ajuda da bancada.
Na felicidade dos que vêm mais vida.
Ás vezes, o mundo é feito de papel.
Vivemos do real e do que vemos acontecer.
Ás vezes, o mundo é feito de papel.
Até aquele sol tornar a nascer.
O vento é o vento,
O sol é o sol,
O seu nascer não é mais um lago de mel.
A cor é a cor,
Os cheiros são os cheiros,
Uma flor, uma flor.
O acender dos candeeiros é apenas o respirar de uma rotina.
O abrir a cama um pedaço dela.
Sabemos o mundo que nos ensina,
Sabemos estes dias a sua aduela.
Reside agora numa palavra mais dura,
Num arrancar de gargalhada.
Num sarar a amargura.
Ser uma espécie de almofada.
Somos então felizes pelo que damos,
Pelo que apontamos.
Responsáveis por quem sempre esteve lá,
Por quem de novo aparece por cá.
Somos apenas nós próprios.
Num pleonasmo expressivo do que fomos.
Alojamo-nos nestes ópios,
Reforçando o que somos.
Somos só uma solidão durável e querida.
Que vive sozinha e interessada
Que ajuda da bancada.
Na felicidade dos que vêm mais vida.
Ás vezes, o mundo é feito de papel.
Vivemos do real e do que vemos acontecer.
Ás vezes, o mundo é feito de papel.
Até aquele sol tornar a nascer.
domingo, 10 de março de 2013
Virá a Igualdade e a diferença - Um aviso ao leitor
Julgarás que aquilo lês,
Nunca fará de ti escravo,
Não passará de ficção.
Mas quão errado o que crês.
Deixa-me dizer-te que cada palavra aqui escrita,
É teu passado, presente ou futuro.
Um pardo rumo que a todos incita,
A fuga que em poeta procuro.
Nada do que houve em ti, será mais.
Tudo o que construíste, sentiste, criaste:
Não será mais.
Ninguém que tiveste tão perto, sentirás de novo.
Tudo o que foram, sentiram, viveram:
Não sentirás de novo.
A amizade que julgaste tua,
O amor que julgaste teu,
A família que julgaste global:
És sozinho numa rua.
Cristão e ateu.
Triste... Fatal.
Dirás a ti que o mundo te ignorou.
Que a vida te deixou.
Dirás que nada mais de ti levará.
Que nada mais em ti haverá.
É estratégia,
Coisa régia.
De larga coroa,
Não é coisa boa.
Olhado de lado como que desconfiado,
"Fora de tempo" é o que te deixa irritado.
Deixa mudar o vento.
Vir as flores, o sol,
E aquele sopro no destinado momento.
Voltarás a sê-lo.
Haverá de novo em ti.
Será isso, mas completamente diferente.
Será a igualdade e a diferença.
Como a vida e a morte.
A realidade não mente.
Mesmo a quem não tem crença.
Mesmo a quem deseja um corte.
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