domingo, 11 de agosto de 2013

Terá de dar outras voltas


Já não és o inconsciente de outrora, 
O incontinente verbal, 
O triturador de falhas que chora. 

És um crítico intelectual 
Do teu próprio espaço. 
Um espectador magistral
De tudo aquilo que faço. 

Continuas a ter a noção, 
De que o tempo chega depois
Do toque da sua mão. 

Continuas a saber 
Que chegas antes do acontecer. 
Continuas a saber 
Quando deves fazer por merecer. 

Mas outrora foste ensinado, 
Que o mundo sentido assusta. 
Que é errado, 
Mais que custa. 

Portanto, 
Aquilo que é não pode parecer ser. 
Aquilo que nasce, não deve aparecer. 
Aquilo em que te soltas, 
Terá de dar outras voltas. 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Até que ponto estaremos certos quanto ao amor ter um fim?



Tenho vivido a minha vida entre duas tendências: "O amor tem um prazo de validade" e o "O amor acabará se nós quisermos".
Não será legítimo pensar que nem tudo é como o pragmatismo humano conta?
Vou por partes:
O amor tem um prazo de validade? Há dias em que penso que sim. Que o amor vive até ao dia em que acaba. E desse dia em diante, estaremos a adiar o inevitável, a viver numa habituação e no costume.

Mas existem outros dias em que questiono esta mesma ideia de validade. Será que todas as relações nascidas de amor, têm apenas o fim do mesmo no tempo em que o quisermos oferecer?
Não estará a mente a pregar-nos uma partida?

Desde que nascemos, vemos à nossa volta um mundo em que o amor tem um fim. A altura do "não dá mais". A altura do "infelizmente já não é a mesma coisa", "espero que sejas feliz mas a nossa relação já não tem mais nada para dar".
Em Psicologia, é nos apontado o mundo em que nascemos e as experiências que vivemos como a origem da nossa Pessoa.
Será que a envolvência em que vivemos, não nos formata a cabeça para tal escolha na nossa vida amorosa?

Certo será que existem relações impossíveis de continuar. Nem toda a lagarta dá borboleta.
Mas, será que enquanto amantes, não cortamos relações pelo simples facto de a nossa cabeça estar formatada para tudo ter um fim?
E se afinal nada tiver um fim?
E se no meio de todos estes anos de evolução, o ser humano acrescentando saber à capacidade de lidar com os seus sentimentos, estiver simplesmente a errar e a perder amores séculos após séculos?

Afinal, até onde o cosmos nos molda a mente? Afinal, até onde a nossa mente somos nós? Até onde as nossas escolhas são válidas? Até que ponto estará o ser humano certo quanto ao amor ter (sempre) um fim?

terça-feira, 4 de junho de 2013

Passos

Largos e pequenos.
Rápidos e vagarosos.
Começam de muito menos,
Inconsequentes, jocosos.

Trapaceiam-se atordoados,
Na posse de quem não os conhece.
Sapateado infantil sem sapatos,
Tormentos de quem os tece.

Gozo de mil espectadores,
Da ignorância dos adultos:
A beleza desses momentos construtores,
Nos ladrilhos, esses mil tumultos!

Os passos deixam  de ser quem são,
Criam-se na constante obstinação,
Dos obstáculos na sua dimensão,
Os passos deixam de ser quem são.

A inocência dos primeiros passos,
Rejeita a beleza da sua simplicidade.
A inocência dos primeiros passos,
Perde-se na idade.

A vida é mais bonita no vulgar significado,
De que os passos são passos no chão.
A vida é mais bonita no vulgar significado,
De que os passos nunca sofrerão.

Urge ler a simplicidade da vida na ignorância da primeira vez.
De quando caímos e choramos.
De quando rimos e saltamos.
Mantendo-te criança nos passos do que lês.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Dor Desconhecida


É física.
É um raspar, um corte, uma luxação.
É critica.
É um romper, um partir, uma contracção.

Diverge entre feridas e mutilações.
Remedeia-se com Midas ou medicações.

E é transcendente.
É uma fala, uma palavra, uma acção.
É inteligente.
É um verbo, um nome, uma altercação.

Corrói do fundo ao exterior.
Remedeia-se com tempo ou perdendo rancor.

Prepara-mo-nos para o que conhecemos.
A dor, como emoção cíclica
Passa com o Saber quem ao redor temos.
Só ela: metafísica.

A dor, a mais contrastante,
Bulímica, rítmica, retumbante,
É o anúncio de quem nunca Soubemos.
A demonstração de quem nunca assim cremos.

A vida faz o favor de o demonstrar,
Que a quem sempre viste serenidade,
Te arrancou a capacidade
De ouvir, de perdoar.

Que a quem sempre viste serenidade,
Se demonstra uma mentira nesta verdade.

A física esconde a suplantação,
O conhecimento de alguém te recupera,
Mas a descoberta de uma mentira te rasga.

E conquistas valias,
Que te farão ver luz ao voltares ao fundo.
Susterás nas nuvens frias,
E ao respirar beberás do mundo.


   

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A normalidade é-me demasiado chata














O que faz do amor aquilo que é?
Que estranha sensação que gira o Mundo.
Longe da água e a perder o pé.
A ausência que traz um normal profundo.

Quando vivido, esbulha-se num passado questionável.
Se ausente, é vida que não se sente,
É logro, é mentira, é fraude, é irrealizável.

O que é o amor quando não mora?
Este estranho momento dando-nos certezas da vida.
Este estranho momento de máquinas lá fora.
O que é o amor quando não se lida?

Máquinas!
Ah, rodas dentadas humanas!
Presas na minha mente, demasiadamente livre de colorido.

Mais do que esta normalidade largada no meu pavor.
Há um receio de que seja este o sentido da vida.
Mais do que o tédio de um apaixonado sem paixão ou amor,
Há o medo de que tudo seja apenas isto:

Um só e longínquo traço vivido entre paredes e tectos.
Um cinzento sem tom, de sistema binário.
Um sem número de intelectuais projectos.

Esta estadia é demasiado curta para existir sem emoção.
Sim, o previsível não mata.
Sim, o calculado é a melhor acção.
Mas a normalidade é-me demasiado chata.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Ainda não me lembro de ti como és



Ainda não me lembro do nosso primeiro beijo. 

Da música que nos cercava,
A conversa que criou o ensejo, 
Dos olhos em tua boca que me olhava. 

Ainda não me lembro dos traços da vertigem, 
Ao subir o castelo da cidade, 
A paisagem que teus cabelos tingem,
Os calafrios da nossa novidade. 


Ainda não me lembro do mergulho conjunto, 
Da água que nos separava e juntava, 
Do abraço apertado tornando-se assunto, 
Da areia que pisava. 

Ainda não me lembro do cinema. 
Da luta de pipocas apaixonadas, 
Do empurrão ao "sem tema", 
Dos primeiros sentimentos em risadas. 

Ainda não me lembro do nosso choro. 
Do momento de dor unidos, 
Das mãos que se enlaçam em coro, 
Do mundo em que estivemos feridos. 

Ainda não me lembro de nada. 
Porque o passado é apenas presente
E o futuro se faz agora somente. 
Numa vida obtusa que parece errada. 

Ainda não me lembro de ti como serás, 
Porque a vida é uma réplica aperfeiçoada
Uma repetição melhorada, se assim a farás. 

Ainda não me lembro de ti como és: diferente. 
Sei que existes, igual, só então somente... 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Carruagem


Encostei-me a uma das laterais e olhei a carruagem bem ao fundo. Um silêncio profundo de que o ressoar dos carris em ferro já fazem parte.
Na minha cabeça saltou a "velha máxima": "Ninguém fala com ninguém nos transportes hoje em dia. Cada um segue o seu caminho. Entra mudo e sai calado."
E a minha percepção entrou em desacordo.
A rapariga que escreve uma mensagem no telemóvel. O homem sentado à frente dela que se questiona sobre o conteúdo da mesma. A mulher ao lado do homem que está cansada e fascinada com as botas da outra mulher que à minha frente boceja sem parar com os olhos vermelhos de sono. Um bocejar que contagia a rapariga numa animada conversa com o namorado, sem sequer abrirem a boca, sentados atrás de mim.
Alguém que se pergunta no final da carruagem se conhece outra pessoa que está sentada algures mais à frente. Os pensamentos de um adolescente de phones nos ouvidos berram mais alto (não os phones, os pensamentos) que os carris.
Nesta ponta está alguém que se pergunta sobre o significado do silêncio com tantas perguntas e conversas e palavras num transporte público.
Alguém que conclui que uma carruagem de metro, trás consigo uma multidão de diálogos, monólogos, perguntas retóricas e preocupações.
Alguém que conclui que a carruagem é o lugar onde mais pessoas falam umas com as outras, ainda que sem abrir a boca.
Alguém que conclui que uma carruagem pode ser, de alguma forma, o espelho dos mundos.